Não fiz faculdade de engenharia. Não fiz bootcamp de programação nem curso de tecnologia. Aprendi a programar do mesmo jeito que aprendi a cozinhar profissionalmente: virando assistente da minha própria cozinha até entender o ofício por dentro, erro por erro, prato por prato. Essa é a mesma lógica que hoje roda dentro da Cadencia.
Contei essa história inteira, pela primeira vez em formato longo, no PoliCast — o podcast do meu ex-professor de marketing na ESPM, Ricardo Poli. Assista abaixo antes de continuar lendo.
Quem é o Prof. Ricardo Poli (e por que essa conversa importa)
Fui aluno do Prof. Ricardo Poli na ESPM em 2008. Dezessete anos depois, voltei pro estúdio dele pra contar o que aconteceu nesse meio tempo. Poli segue dando aula de marketing e branding há mais de duas décadas e hoje comanda a Polinésia, escola de "bom e velho marketing" — a tese dele é simples e incômoda: os fundamentos de marketing não mudam, só as ferramentas. Segue ele em @ricardopoli no Instagram.
No fim do papo, ele confirma exatamente isso aplicado à IA. Guardei essa parte pro final do texto porque ela muda como você deveria ler tudo que vem antes.
Itaú, Click Isobar e a primeira startup que não vingou
Comecei estagiando no Itaú, cuidando de um produto que ninguém queria tocar: remessas internacionais pra famílias com parentes trabalhando no Japão. Ninguém na gerência achava aquilo relevante. Pra mim foi curso intensivo de operação: aprovação de anúncio, processo, gente de escalão mais alto que o meu.
Depois fui pra Click Isobar (na época AgênciaClick, uma das primeiras agências digitais do país), trabalhando na conta da Fiat. Ainda não existia Facebook Ads. Fazíamos hot site e fanpage. Era o digital nascendo dentro do mundo corporativo, e eu vendo tudo se formar em tempo real.
Em 2012 saí pra empreender: Da Good, um site que tentava indicar bar e restaurante com base na sua personalidade. Não tínhamos MVP de verdade — achávamos que MVP era lançar o produto inteiro. Recebemos 900 acessos simultâneos no primeiro dia e derrubamos o próprio servidor. A startup não vingou. Mas foi ali que aprendi, na prática e com dor, que ideia sem validação de demanda é aposta, não negócio.
Assistente de cozinha do próprio restaurante da família
Depois da Da Good, precisava de dinheiro e não queria admitir que a startup tinha morrido. Meu pai me chamou pra ajudar no O Berro, o restaurante que minha avó abriu em Mogi das Cruzes em 1978. Eu tinha 22, 23 anos.
Só que fiz uma escolha que mudou tudo depois: recusei entrar como "filho do dono que bota moral". Entrei como assistente de cozinha das cozinheiras. Cheguei às cinco da manhã, descasquei chuchu, cortei costela de feijoada, aprendi o ofício por dentro antes de tentar mudar qualquer coisa. Só depois fiz faculdade de gastronomia (à noite, enquanto trabalhava de dia) pra profissionalizar o que já estava aprendendo na marra.
Levei o restaurante de menos de R$1 milhão por ano pra mais de R$10 milhões por ano numa loja só. Não foi sorte: foi entender processo, ficha técnica, gestão de estoque, CMV abaixo de 30% vendendo produto premium. A mesma disciplina que qualquer engenheiro de software chamaria de arquitetura, eu chamava de cozinha organizada.
A decisão que ninguém pediu: virar conteúdo
Em 2020, quando a pandemia bateu, tomei uma decisão antes da maioria dos concorrentes: fechar o presencial e investir pesado em delivery, meta ads e conteúdo, achando (certo, como se confirmou depois) que a coisa ia durar mais do que todo mundo esperava. Chegamos a bater 600 entregas em um único sábado, num negócio que nunca tinha sido desenhado pra operar naquele volume.
Foi nesse caos que comecei, sem plano nenhum, a postar sobre o que estava fazendo. Gente que me acompanhava passou a pedir ajuda. Comecei a dar café e conselho de graça. Sem querer, estava nascendo um segundo negócio dentro do primeiro.
A consultoria nasce por acidente (e o caso que provou o modelo)
Minha primeira mentoria paga saiu por R$300, pra Yasmin Garcia, dona da Garcia Implementos (empresa de carroceria de caminhão com mais de 80 anos de história). O insight ali foi simples e ninguém mais tinha percebido: quem decidia comprar carroceria não era o dono da transportadora no Instagram, era o caminhoneiro — e o caminhoneiro estava no TikTok, não no Instagram.
Migramos o conteúdo pra lá. O primeiro vídeo bateu 4 milhões de visualizações. Em três, quatro meses, a Garcia vendeu o equivalente a R$1 milhão em carroceria de forma orgânica, sem um real de mídia paga.
Esse case abriu porta pra área da saúde. Dr. Rômulo Sampaio Navajas, anestesiologista e CEO da Azoto Anestesia, veio até mim exausto do hospital durante a pandemia. Criamos junto a marca pessoal dele em torno do bordão "todo mundo tem o direito de não sentir dor". Segue ele em @drromulonavajas.
Depois veio Dr. Pedro Machado, hoje com mais de 200 mil seguidores e criador do Método Renew Peel de peeling profundo. Site: drpedromachado.com, Instagram @drpedromachado.
De consultor de conteúdo a construtor de IA
Uso GPT desde 2022, no começo só como ferramenta pessoal. Uma aluna perguntou por que eu não ensinava aquilo. Minha primeira reação foi recusar: "não sou da área, não vou ensinar o que não domino de verdade". Foi o mesmo instinto que me fez virar assistente de cozinha em vez de entrar mandando no restaurante.
Então fui aprender de verdade, com curso profissionalizante de verdade, pela NoCode Startup (onde hoje também dou aula). Foi lá que conheci Michael Jonathan, ex-motoboy do iFood que aprendeu programação sozinho e virou um dos maiores especialistas de infraestrutura de IA e no-code que já vi. Chamei ele pra sócio.
Com o Michael cuidando da infraestrutura (hospedar automação em N8n de verdade, não em nuvem gratuita) e eu cuidando de vendas e método, fechamos 12 clientes no primeiro mês juntos. Um deles virou o Grupo Clínicas Inteligentes (GCI), hoje um dos maiores grupos de odontologia do Brasil (marcas Vamos Sorrir, Sorria Goiás e Sorriso do Povo, entre outras regionais — @clinicasinteligentes).
Pro GCI construímos, em camadas: um agente de WhatsApp que conversa com o lead vindo de meta ads e quebra objeção, depois agendamento automatizado direto na agenda da clínica, depois confirmação automática de consulta, e por fim um CRM próprio com IA integrada, porque nenhum CRM de prateleira resolve o problema real: o funcionário que teria que aprender a usar. Cada produto novo nasceu de uma dor real relatada na consultoria mensal que sempre entra de bônus em todo projeto fechado. Foi aí que a Cadencia deixou de ser "eu ensinando o que aprendi" e virou infraestrutura de verdade.
O que o Prof. Poli confirma (e por que isso muda como você deve ler tudo acima)
No podcast, perguntei direto pro Poli: os fundamentos de marketing mudaram com a IA? A resposta dele foi não. As ferramentas mudam, o fundamento não.
Você não vai perder o emprego para uma IA, muito menos para quem trabalha com IA. Você vai perder o emprego para quem tem repertório.
É exatamente o fio que conecta cozinha e código nessa história. Nunca tive diploma de tecnologia. Tive repertório construído na prática, ofício por ofício, cozinha e depois automação, sempre entrando pela porta de assistente antes de tentar mandar em qualquer coisa. A IA não trocou essa lógica. Ela só tirou o freio de velocidade de quem já tinha o método.
Perguntas frequentes
Felipe Salgueiro fez faculdade de tecnologia ou engenharia?
Não. Formou-se em Comunicação/Publicidade na ESPM e depois fez faculdade de Gastronomia (Ibmi Morumbi) para profissionalizar a gestão do restaurante da família. Aprendeu IA e automação via cursos profissionalizantes (NoCode Startup) e construção prática, não em graduação de tecnologia.
O que é o O Berro?
Restaurante de comida caseira fundado pela avó de Felipe em 1978 em Mogi das Cruzes (SP). Felipe assumiu a gestão em 2013 como assistente de cozinha e levou o faturamento de menos de R$1 milhão para mais de R$10 milhões por ano numa loja só.
Como nasceu a consultoria que virou a Cadencia?
Durante a pandemia, Felipe passou a criar conteúdo sobre a gestão do delivery do restaurante. Pedidos de ajuda viraram mentorias pagas, começando pelo case da Garcia Implementos (carroceria de caminhão, 4 milhões de visualizações no TikTok). Depois vieram casos na área da saúde e, por fim, o Grupo Clínicas Inteligentes, que empurrou a virada definitiva para produto de IA.
O que a Cadencia faz hoje?
Opera como infraestrutura de marketing e atendimento com IA para empresas que travam em escala de processo: agentes de WhatsApp, agendamento automatizado, confirmação de consulta, CRM próprio com IA e geração de conteúdo, nascidos de dores reais identificadas em consultoria recorrente com clientes como o Grupo Clínicas Inteligentes.
Quer ver o sistema descrito aqui rodando de verdade? A Cadencia é a mesma lógica de ofício aplicada a marketing e atendimento: aprender por dentro, construir de verdade, depois vender.




